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I Educação & liberdade
“Se não for libertária,
toda pedagogia é autoritária”
A pedagogia é uma área de investigação humana na
qual predomina, como é o caso da história e da sociologia, uma abordagem
política. Este ponto de vista predominante é facilmente justificável
não apenas por causa da reflexão sobre os resultados sociais da
educação, ou seja, a questão de saber se o ensino envolve reprodução ou
transformação da realidade social, mas também em função nda
natureza das relações de poder que permeiam o próprio contexto de
ensino-aprendizado. Sendo mais direto e provocador: será que o saber é
gerador de assimetrias? Será que só é possível aprender com base na
obediência?

Desde a perspectiva anarquista de conceber a política, temos duas
formas básicas de relação interpessoal: a vertical e a horizontal. Na
primeira forma, predomina um desequilíbrio da relação humana através da
sobreposição ou imposição da vontade de um só ou de um grupo minoritário
sobre os outros. Temos, portanto, na relação vertical diferentes tipos
de dominação e hierarquia. Na segunda forma, temos uma relação baseada
no entendimento mútuo, numa associação livre entre sujeitos históricos
que se autogovernam, na qual todos os envolvidos participam diretamente
da organização das atividades em pauta e na tomada de decisões.
Há uma antiga palavra para descrever este tipo especial de convívio
humano: “anarquia”, ou seja, ordem na ausência de dominação exterior.
A realização desse tipo de sociabilidade, de convivência, pode ser
constatada em todos os âmbitos da vida humana, incluindo a educação. A
pedagogia libertária é fruto do esforço de diferentes anarquistas para
criar instituições e estratégias de fomento e difusão de saberes que
permitam a realização da educação para a liberdade, através da
liberdade. Este campo de processos educativos libertários ilustra de
modo bastante claro a máxima libertária de que “os fins já estão
inseridos nos meios”.
Um obstáculo central para o projeto de uma educação livre consiste no
fato de que vivemos todos numa sociedade amplamente organizada em
termos verticais. A necessidade de educação livre surge diante da
deformação autoritária que sofremos na vida social. Em todos os espaços
sociais encontramos a presença de personagens ou funções impositivas, na
família o pai, na escola o professor, na rua o policial, no trabalho o
patrão, etc. Somos submetidos desde a infância a uma socialização que
está sempre marcada pela ênfase na repetição das assimetrias e na falta
de autonomia. Por isso, a pedagogia libertária nunca esteve restrita ao
âmbito da escola ou das instituições de ensino.
É necessário modificar a formação humana não apenas na escola formal,
mas também na vida familiar e comunitária, na medida em que estamos
continuamente aprendendo e ensinando uns aos outros. Ainda assim, a
criação de escolas livres e/ou de espaços alternativos como lugar de
aprendizagem e intercâmbio de ideias não deve ser subestimado, pois se
trata de uma ação direta que abre a possibilidade concreta de
aprendizado da liberdade. A pedagogia libertária é necessária não apenas
para aprendermos na liberdade, mas para aprendermos a ser livres
conjuntamente.
No movimento anarquista, a clareza a respeito da necessidade de
escolas e espaços é uma constante que atravessa os contextos históricos e
sociais. A educação sempre foi vista como um elemento central para a
transformação social, ainda que a contribuição da educação nunca tenha
sido isoladamente, nem muito menos encarada como a panaceia universal.
De qualquer modo, pressupondo que nenhuma ordem social e política é
sustentada apenas na base do chicote e do dinheiro, ou seja, através do
poder político e econômico, os anarquistas rapidamente reconheceram a
importância da luta ideológica, defenderam o papel da transformação da
consciência e da visão de mundo.
Através da transmissão de um sistema de crenças e valores, a família e
a escola contribuem de modo bastante essencial para a manutenção da
realidade social. Há, por assim dizer, um tipo de escravidão psicológica
que deve ser superado juntamente com o fim da exploração econômica e a
opressão política.
II Escola Moderna²
“Não há educação libertária
que não seja autoeducação”
Dentre as inúmeras experiências históricas de aplicação
prática das concepções da pedagogia libertária, pode-se destacar a
escola fundada em 1901, pelo pedagogo Francisco Ferrer y Guardia.